
Não sou cinéfilo, aliás a minha cultura cinematográfica é praticamente nula, mas sou sensível a um bom filme.
"
Savage Grace", com a belíssima
Julianne Moore no papel da aristocrata (e talvez ninfomaníaca) franco-americana
Barbara Daly Baekeland, uma mulher rica e solitária.
A história desenrola-se à volta do casamento falhado de Barbara com
Brooks Baekland, um herdeiro duma fortuna colossal. À medida que o casamento se deteriora, a relação entre Barbara e o único filho do casal,
Tony, estreita-se doentiamente.
"
Esta sociedade é doentia" profere Barbara algures na trama. É de facto. Mas a essa altura da história "nem a procissão ia no adro"; não fazemos ideia da conturbada libido desta mulher.
Percebemos (ou confirmamos) que enquanto humanos somos inadvertidamente animais, no sentido mais literal. O espaçamento entre os racionais e os irracionais é tão ténue, como assustador.
Leva-me a pensar que a racionalidade, que nós
animais humanos detemos, não passa de uma mera capacidade de camuflagem numa sociedade que nos impõe valores. A sociedade obriga-nos à hipocrisia com o nosso próprio íntimo, apontando o dedo a quem incumpre os cânones, mesmo cientes do nosso próprio incumprimento.
Não conhecemos ninguém para além de nós, pensamos conhecer mas não. O que nos é mostrado (e o que mostramos) é apenas a ponta do iceberg. A transparência é mais uma de outras tantas utopias, ao contrário da aparência, essa sim é uma constante.